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Economia

inflação acima da meta: o que os juros atuais significam para os trabalhadores em 2026

Caleb Calderstone
Por Caleb Calderstone
junho 19, 2026
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O Brasil tem os maiores juros reais do mundo, e o impacto chega diretamente ao poder de compra dos trabalhadores e às negociações salariais das categorias.

Junho de 2026 encontrou o Brasil em um paradoxo econômico que afeta diretamente quem vive de salário. O Banco Central cortou a Selic para 14,25% ao ano na reunião de meados do mês, segunda redução consecutiva após o pico de 15% mantido por quase um ano. Ao mesmo tempo, levantamento da Money You e Lev Intelligence, divulgado na mesma semana, posicionou o Brasil como o país com o maior juro real do mundo, em 9,67% ao ano, à frente da Rússia (9,31%) e da Turquia (5,57%) (Infomoney). Para o movimento sindical, esse dado não é abstrato: ele define o custo do crédito, a capacidade de consumo dos trabalhadores e os limites das negociações por reajuste salarial.

A inflação prevista para 2026 está em 5,11% segundo o Boletim Focus de junho do Banco Central, acima do teto da meta oficial de 4,5% (Agência Brasil). Boa parte dessa pressão vem dos combustíveis e dos alimentos, categorias que pesam desproporcionalmente no orçamento de trabalhadores de renda mais baixa. Qualquer campanha salarial que não leve em conta essa realidade corre o risco de entregar um reajuste nominal que representa, na prática, perda real de poder de compra.

Por que o juro real alto prejudica especialmente os trabalhadores

O conceito de juro real é simples: é a taxa de juros descontada a inflação projetada. Quando essa taxa é elevada, o dinheiro guardado rende bem. Mas, para quem precisa de crédito, o efeito é inverso: os empréstimos ficam caríssimos, o consumo se retrai e a atividade econômica desacelera.

Para os trabalhadores, o juro alto atinge de ao menos duas formas diretas. A primeira é o crédito pessoal: financiamento de veículo, empréstimo consignado e cartão de crédito ficam mais caros, reduzindo a capacidade de consumo e aumentando o endividamento. A segunda é o impacto sobre o emprego. Empresas com custo de capital elevado tendem a adiar investimentos e expansões, o que contém a criação de postos de trabalho. O crescimento do PIB em 2026 foi projetado em apenas 1,91% pelo mercado financeiro (Jornal do Brasil), um ritmo modesto que não costuma gerar pressão por abertura de vagas em escala.

Por isso, entidades sindicais em fase de preparação de campanhas salariais para datas-base no segundo semestre precisam incorporar ao seu argumentário não apenas o INPC acumulado, mas também a perda de poder de compra gerada pelo custo do crédito e pela inflação dos alimentos. CCTs recentes, como a do setor de TI em São Paulo negociada pelo Sindpd, já conquistaram reajuste de 4% em 2026 com aumento real nos pisos salariais (Sindpd SP).

Negociação coletiva e o cenário de juros altos

O debate sobre os efeitos dos juros nas negociações coletivas vai além dos números. Em um ambiente de crédito caro, as empresas tendem a usar o argumento do custo financeiro elevado para resistir a reajustes acima da inflação. Sindicatos com boa estrutura técnica precisam estar preparados para contrariar essa narrativa com dados concretos sobre produtividade, lucros setoriais e evolução real dos salários nos últimos anos.

A reforma trabalhista de 2017 fragilizou o financiamento dos sindicatos ao extinguir a contribuição sindical obrigatória, o que reduziu a capacidade técnica de muitas entidades. Um artigo publicado no Conjur em junho de 2026 apontou que o Brasil discute reduzir jornadas de trabalho justamente no momento em que o movimento sindical enfrenta menos recursos para negociar essas mudanças (Conjur). A questão central, portanto, não é apenas econômica: é também de capacidade de representação. Quem estará na mesa com força real para negociar quando os juros finalmente caírem?

Fontes: Infomoney | Agência Brasil | Jornal do Brasil | Conjur | Sindpd SP

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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